Caro leitor, não sei aonde vai terminar essa matéria. Acho que ela é mais uma provocação do que uma matéria.
Provocação pois quero sim mexer comigo, com você, com aquele papo na mesa do bar...
É inequívoco que vivemos em uma sociedade consumista. Consumista porque compramos mais do precisamos, menos do que gostaríamos, mais do que quem precisa e sempre menos do que com quem competimos.
Entre anúncios, empréstimos e parcelamentos, como diria o saudoso Gonzaguinha, em Grito de Alerta: ”eu vou perguntando, até quando?!”
Por mais que acreditemos que temos menos do que o desejado, temos, via de regra, mais do que o necessário, mais que a natureza suporta nos dá, e principalmente mais do que temos tempo de usufruir, visto que trabalhamos demais para ter.
A dissociação entre capital e trabalho, ou seja, o fato de não pensarmos no dinheiro como fruto de quanto tempo de trabalho foi necessário realizar para acumular tal soma, amplia a sensação de querer mais.
Nesta lógica, não pensamos em quanto do usufruir da vida deixamos de viver. Quantas horas no parque com o filho não estivemos? Quantos livros deixamos de ler? Quantas ondas, simplesmente, não pudemos olhar da areia da praia?
Trabalhamos para ter, tendo geramos mais trabalho que nos permite ter mais e quanto mais temos, menos usufruímos, pois mais trabalhamos e por aí vai...
Compramos para acumular, para guardar, para ter, para ser, mas quase nunca para usufruirmos.
Uma vertente do consumo que espero que surja seja o do usufruto. Precisamos transformar nossos bens em uso, em prazer, em constante.
Muito do peso no processo de compra é formado pelo que vão pensar de nossas escolhas e raramente podemos pegar apenas o que nos é desejo, puramente nosso.
Vendem, todo o tempo, os significados sociais, nunca o uso dos produtos e marcas. Não é rentável vender o óbvio, mas é muito vantajoso comprá-lo. Pagamos caro pelos aspectos intangíveis de tal bem ou marca, como: status, poder, juventude etc.
As decisões de consumo estão quase sempre alinhadas ao reflexo que tal bem ou serviço representa no ambiente que vivemos, seja de forma consciente ou de modo subliminar.
A busca por um consumo focado no usufruto e não no significado tende a trazer uma vivência produtiva e detonando um processo de compra hedonista, baseado no prazer, e não no referencial de significado social.
Neste momento, as coisas retornarão a seu real valor, e teremos mais tempo para viver, pois não estaremos esperando que coisas nos dêem a alegria que só nós mesmos, entre nós, podemos achar.